O embalo trágico de Tenório Jr.

Marcelo Pinheiro
8 min readApr 21, 2020

--

Lançado em 1964, “Embalo”, único álbum solo do pianista morto nos porões da ditadura argentina, é um clássico do samba-jazz

O pianista, compositor e arranjador Tenorório Jr. Foto: Foto: Jorge Peter — Reprodução CNV / Memórias da Ditadura
O pianista, compositor e arranjador Tenório Jr. Foto: Jorge Peter

por Marcelo Pinheiro (publicado em 3.10.2013*)

“Vou sair para comer um sanduíche e comprar um remédio. Volto logo.” No bilhete manuscrito, endereçado ao poeta Vinicius de Moraes e deixado na portaria do hotel Normandie em Buenos Aires, na noite de 18 de março de 1976, essas foram as últimas palavras do pianista Tenório Francisco Cerqueira Junior, mais conhecido como Tenório Jr., seu codinome artístico, ou pelo diminutivo Tenorinho, como os amigos carinhosamente o chamavam.

Carioca do bairro Laranjeiras, aos 35 anos o pianista acompanhava Vinicius e seu parceiro Toquinho em uma série de shows que, além de Buenos Aires, também seriam apresentados em Punta Del Este e Montevidéu, no Uruguai.

Seis dias antes do golpe militar que derrubou a presidente María Estela Martínez Cartas de Perón e instaurou uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina, Tenório foi detido por militares argentinos, sob suspeição de envolvimento com artistas e lideranças comunistas brasileiras. Jamais foi encontrado. Seu trágico fim, por anos, foi um grande mistério que, defendem alguns, envolveu militares brasileiros.

Tenório Jr. começou a se aventurar pela música aos 15 anos de idade, quando estudou acordeon e violão, mas logo trocou os dois instrumentos pelo piano. Sete anos mais tarde, tornou-se um dos músicos mais requisitados do Rio de Janeiro, figurinha fácil no Beco das Garrafas e no Clube de Jazz e Bossa, antros boêmios de grandes improvisadores cariocas.

Em fevereiro de 1963, a convite do saxofonista americano, Tenorinho integrou o grupo de Bud Shank no Festival de Jazz de Mar Del Plata, na Argentina. Em 1964, além de lançar seu próprio álbum, integrou o grupo Os Cobras, que, como o nome sugere, reunia um verdadeiro quem é quem da cena samba-jazz carioca. Com o combo Tenório gravou, ao lado de músicos do primeiro time — Raul de Souza, J.T. Meirelles, Paulo Moura e Milton Banana, entre eles — uma das obras-primas do novo gênero instrumental derivado da bossa nova, o álbum O LP.

Também em 1964, o pianista integrou as gravações de outros dois registros históricos, Vagamente, da cantora e violonista Wanda Sá, e É Samba Novo, primeiro álbum solo do baterista Edison Machado, com arranjos do maestro Moacir Santos.

Aos 23 anos, quando cursava o 4° ano de Medicina (que não chegou a concluir) na Faculdade de Ciências Médicas do Rio de Janeiro, Tenório foi apresentado aos executivos da RGE pelo amigo Roberto Menescal. Logo recebeu carta branca da gravadora para produzir Embalo, seu primeiro álbum solo.

Gravado entre os meses de fevereiro e março de 1964 no Rio de Janeiro, o LP contou com a participação do Tenório Jr. Trio, que era formado por ele, o baterista Milton Banana e o baixista José Antônio Alves, também conhecido como Zezinho ou Bicão. Com 11 temas instrumentais, Embalo é prova inconteste do grande talento de Tenório, que compôs cinco e assinou os arranjos de oito músicas — os demais, Embalo e Consolação, foram escritos por Paulo Moura e Carnaval sem Assunto, assinado pelo próprio compositor, o baixista Zezinho.

Ao trio de Tenório somou-se um time da pesada: Paulo Moura (sax alto), J.T, Merirelles e Hector Costita (sax tenor), Maurílio e Pedro Paulo (trompete), Ed Maciel e Raul de Souza (trombone), Celso Brando e Neco (violão), Rubens Bassini (atabaque), Ronnie Mesquita (bateria) e Sergio Barrozo (contra-baixo).

Capa de “Embalo”. Foto: Reprodução RGE

Na contracapa do disco, Tenório humildemente afirma: “É a minha primeira tentativa em disco como líder… Tudo me foi creditado, desde a escolha dos temas e arranjos, até detalhes mais técnicos, como estúdio, engenheiro de som (Umberto Contardi), capa (ilustração de Sérgio Roberto Ribeiro), etc. Eis aqui, então, o produto de um trabalho sincero e esforçado. É o que temos para apresentar no momento.”

Apesar do modesto “é o que temos”, o disco, um clássico do samba-jazz, foi recebido com entusiasmo pelos pares musicais do pianista e por ouvintes mais atentos. Mas, como tantos outros importantes trabalhos do período, foi também esquecido. Apesar de seu inegável requinte, o álbum não possibilitou a Tenório dar continuidade à promissora carreira autoral. O pianista, no entanto, continuou na ativa em shows e gravações de grandes artistas, como Lô Borges, Beto Guedes, Nelson Ângelo, Edu Lobo, Milton Nascimento e a cantora Joyce Moreno.

E foi justamente defendendo a faceta de músico profissional que Tenorinho foi covardemente morto por uma nebulosa rede de repressão estabelecida no Cone-Sul, a chamada Operação Condor, que sequestrou, torturou e matou dissidências políticas do Chile, Brasil, Uruguai, Argentina e Bolívia. No livro Operación Condor: Pacto Criminal, lançado no México em 2001, a jornalista Stella M. Calloni afirma que Tenório Jr. foi torturado por agentes brasileiros e argentinos, entre eles o major do Exército Souza Baptista Vieira.

O relato de Stella converge com uma controversa entrevista publicada, em maio de 1986, na edição 270 da extinta revista Senhor, na qual um ex-militar argentino, Claudio Vallejos, que à época integrava o Serviço de Informação Naval, afirma que agentes do SNI (o Serviço Nacional de Informações) estiveram presentes na execução de Tenório Jr, realizada nove dias após sua prisão, com um disparo fulminante na cabeça.

À Senhor, Vallejos afirmou que Tenório foi encarcerado na ESMA (Escola de Mecânica da Armada), aparato clandestino de repressão da Marinha argentina, que existiu entre 1976 e 1979, espaço que, segundo relatos e denúncias, foi palco de quase cinco mil assassinatos.

Além da entrevista e do depoimento pessoal, Vallejo também revelou, na ocasião, documentos comprometedores. Um deles afirmava que, dias depois do sequestro, a Embaixada Brasileira em Buenos Aires foi notificada da prisão e da morte de Tenório. O documento apresentado por ele continha os polêmicos trechos reproduzidos abaixo:

– Lamentamos informar a essa representação diplomática o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro;

– O mesmo encontrava-se detido à disposição do Poder Executivo Nacional, o que foi oportunamente informado a essa Embaixada;

– O cadáver encontra-se à disposição da Embaixada na morgue judicial da cidade de Buenos Aires, para onde foi remetido para a devida autópsia.

Os governos do Brasil e da Argentina afirmaram desconhecer o documento, colocando, inclusive, sua autenticidade em xeque. Vallejos foi preso na redação da Senhor, por determinação do então Ministro da Justiça, Paulo Brossard, dias após a publicação da entrevista.

Em agosto de 1987, em nova entrevista à revista, o ex-agente afirmou ter sofrido, durante sua breve prisão, ameaças de homens da Polícia Federal e ter recebido a recomendação de não insistir na omissão da embaixada brasileira e no envolvimento de agentes do SNI na morte de Tenório.

Viúva do pianista, Carmem Magalhães Tenório Cerqueira teve com ele cinco filhos — o caçula nasceu um mês após seu desaparecimento. Diante de fatos tão escabrosos, Carmem solicitou às autoridades brasileiras que checassem a autenticidade dos documentos apresentados por Vallejos, mas não foi atendida.

O sequestro de Tenório Jr. foi noticiado no Brasil em 22 de março de 1976 no Jornal do Brasil, em reportagem que levou o título Brasileiro Desaparece na Argentina. O paradeiro do amigo e o esclarecimento sobre o que havia ocorrido com ele tornou-se questão de honra para vários artistas brasileiros.

Nas primeiras horas, Vinicius, Toquinho e o poeta Ferreira Gullar, este último exilado em Buenos Aires, mobilizaram procuras em hospitais, delegacias e na Embaixada Brasileira.

Tenório Junior, Tião Neto (contrabaixo) e Edison Machado (bateria). Foto: Reprodução / Facebook
Tenório Junior, Tião Neto (contrabaixo) e Edison Machado (bateria). Foto: Reprodução / Facebook

Quatro dias depois, em um ofício enviado ao Ministério das Relações Exteriores, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Ricardo, Gonzaguinha, Ronaldo Bastos, Aldir Blanc e Jards Macalé manifestaram preocupação com o desaparecimento de Tenório e cobraram esclarecimentos.

Publicada em 1997, a biografia O Crime Contra Tenório — Saga e Martírio de um Gênio do Piano Brasileiro suscitou ainda mais polêmicas. Nela, com base em diversos depoimentos, o autor do livro, Frederico Mendonça de Oliveira, o Fredera, guitarrista que, entre outros grupos, tocou com o Som Imaginário e convivia com Tenório desde 1974, atribui culpa ainda maior ao governo brasileiro. “(…) Começavam os preparativos para libertá-lo quando o SNI manifestou interesse pelo preso. Tenorinho foi intimado a delatar artistas comunistas. Em seguida, torturado com a técnica chamada ‘submarino’, pendurado de ponta-cabeça. Com os tornozelos amarrados e as mãos algemadas para trás, era mergulhado num tonel de água, entre uma pergunta e outra. No dia 21 de março, continuava em silêncio e foi visitado por um alto funcionário da Embaixada brasileira.”

Em 1997, por meio da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Segurança e Direitos Humanos, o Estado argentino reconheceu a responsabilidade pela morte de Tenório, fato que possibilitou a família do pianista, que então vivia sérias dificuldades financeiras, dar entrada em um processo de reparação, demanda que seria parcialmente atendida somente em outubro de 2006, quando o juiz Alfredo França Neto decidiu condenar formalmente a União.

Em junho de 1998, diplomatas brasileiros realizaram investigações nos arquivos da Secretaria de Estado das Relações Exteriores, em Brasília, e na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, mas alegaram não ter encontrado os documentos apresentados por Claudio Vallejos.

Em 24 de março de 2006, o então presidente argentino Nestor Kirchner inaugurou nas antigas dependências do ESMA, o Espaço para a Memória e os Direitos Humanos. Tenório Jr. tem o nome inscrito no Parque da Memória, em Buenos Aires, e também estampada com a frase “aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina” uma placa afixada em sua memória, na entrada do hotel Normandie, onde foi visto pela última vez. Em 1979, a amiga Elis Regina deixou a seguinte dedicatória no álbum Essa Mulher: “À presença de Bituca (Milton Nascimento) e à ausência de Tenório Jr”.

Quem foi próximo de Tenorinho garante que o músico era totalmente apolítico. Embora fosse filho de um militar, seu pai foi delegado, o pianista jamais expressou empatia por qualquer um dos lados ideológicos. Em entrevista concedida em 2003, Toquinho afirmou que a aparência de Tenorinho certamente contribuiu para sua prisão.

“Tenório era um tipo original, muito alto, de barba, cabelos longos, usava um capote comprido, foi confundido com alguém.” O estereótipo de militante provavelmente foi fatal para Tenório, mas seu grande talento segue à prova do tempo. Embalo não deixa dúvidas.

Confira abaixo a íntegra do álbum.

Boas audições e até a próxima Quintessência!

*Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 3.10.2013

--

--